Maternidade e produtividade: entre filhos e profissão, o ambiente de trabalho também pode acolher e ser rede para mães
12 de maio de 2026 - 14:55 #mães #Maternidade e produtividade #Série Mês das Mães 2026
Assessoria de Comunicação da Sesa
Texto: Marcela Belchior
Fotos: Marcela Belchior, Thamires Oliveira e Sesa
Artes gráficas: Júlio Lopes
Para além de um entrave à presença materna na vida do filho, a manutenção da mãe no mercado de trabalho representa não apenas disponibilidade financeira, como também um importante canal de participação da mulher na vida em sociedade em suas mais diversas esferas, e contar com uma rede de apoio para que isso se viabilize é primordial. Quem afirma é Francy Meire Brandão, 58, que trabalha como assessora técnica na Superintendência Jurídica (SPJur) da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), e precisou esperar as filhas crescerem para ver florecer sua vida além dos horizontes da maternidade.
“Na minha geração, a participação dos homens na criação dos filhos era mais distante. O pai era o provedor e a mãe ficava dentro de casa. Quando eu fui mãe, não tive rede de apoio da minha mãe, que viajava vendendo artesanato, mas tive apoio da minha irmã. Na época, eu era dona de casa. E eu tinha vontade de trabalhar fora, mas só pude quando elas já estavam maiores”, recorda. A quarta e última matéria da série Mês das Mães 2026 da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) aborda meios de acolhimento do ambiente de trabalho na construção de uma rede de apoio que favoreça a conciliação da vida laboral com o exercício do maternar.
A assessora técnica Francy Meire Brandão formou-se em Direito depois dos 50 anos e hoje é rede de apoio para as filhas, na criação dos netos
Meire conta que a porta de entrada para o mundo laboral foi o comércio de seu próprio pai, logo após se divorciar e ter de recomeçar, pessoal e financeiramente. Na época, a filha mais nova tinha apenas um mês de vida. “E eu a levava para o meu trabalho, num cestinho de palha, com um travesseiro, enquanto eu ficava operando o caixa”, relembra. “Foi ali que eu comecei, com uma rede de apoio formada pela minha família”, aponta.
Mas foi quando pôde investir na carreira que a mudança mais profunda aconteceu. “Comecei a fazer a faculdade de Direito, me formei, estagiei tanto na Defensoria Pública quanto no Tribunal de Justiça. Eu me senti viva”, se alegra. “Passei a ter uma mente diferente, mais aberta aos acontecimentos. Porque eu vivia tão trancada dentro de casa… Me sentia uma pessoa parada. Não tinha a amplitude que é conviver com outras pessoas, falar sobre assuntos diferenciados. Era só ser mãe, mesmo”, observa.
“Quando eu voltei a estudar, minha visão ficou totalmente diferente. Tive oportunidade de emprego na Sesa e estou aqui, na labuta, para o que der e vier”, diz Meire, que agora planeja cursar uma pós-graduação. Meire afirma que hoje faz parte da rede de apoio das duas filhas no cuidado com os netos, para que elas também possam se desenvolver em todos os âmbitos. “Os anos estão se passando, mas eu estou me sentindo uma pessoa útil, que é a melhor coisa de sentir na vida”, celebra.
Da esquerda para a direita, Meire com os netos, na formatura em Direito e com cada uma das filhas, Monique e Mariana
Acolhimento às várias formas de maternar
A psicóloga Luana Menezes, pós-graduada em Neuropsicologia e Saúde Mental e atualmente servidora e assessora da Coordenadoria de Gestão Estratégica e Desenvolvimento de Pessoas (Cogep) da Sesa, afirma que, para favorecer o ingresso e a retenção profissional de mulheres que são mães, é preciso pensar em um ambiente de trabalho mais inclusivo, que ofereça recursos como jornadas flexíveis, acompanhamento psicológico, campanhas internas e palestras, além de analisar possibilidades de riscos ocupacionais aos quais gestantes ou mães de bebês estejam expostas.
Pensando nisso, atualmente, a Secretaria Executiva de Planejamento e Gestão Interna (Sepgi) da Sesa, por meio da Coordenadoria de Gestão Estratégica e Desenvolvimento de Pessoas (Cogep) e da Célula de Qualidade de Vida, Segurança e Medicina do Trabalho (Ceqvi), desenvolve o Programa de Bem-estar Laboral, que é um conjunto de estratégias de promoção da saúde integral do trabalhador e da trabalhadora do órgão.
Dentre os projetos, está o Maternar Saudável, iniciado em 2024. O objetivo da iniciativa é oferecer apoio e orientações às trabalhadoras mães no Nível Central, em especial as que estão gestantes, puérperas ou lactantes. As atividades acontecem por meio de rodas de conversa, oficinas e palestras ministradas por profissionais de saúde especializados. Já houve onze edições realizadas e foram registradas 52 participações. À medida que outras demandas são percebidas no grupo de mães, essas são encaminhadas para outros projetos, como o Plantão Psicológico, o Momento Saúde do Trabalhador e a Auriculoterapia.
Para 2026, o plano é ampliar esse escopo, incluindo as várias fases da maternidade. “Sempre vale a pena reforçar que uma trabalhadora que é mãe e está bem vai render muito mais do que outra que está no trabalho e não se sente acolhida, compreendida, não sente que os colegas se importem”, explica a psicóloga Talita de Moisés, uma das responsáveis pelo Maternar Saudável.
O projeto Maternar Saudável promove rodas de conversa entre mães que são trabalhadoras no Nível Central da Sesa
Meios práticos de ser rede de apoio no trabalho
Também no Nível Central da Sesa, o Programa de Desenvolvimento de Equipes (PDE), da Célula de Desenvolvimento de Pessoas (Cedep), existe desde 2023 e busca fomentar a cultura do trabalho em equipe na instituição. “É fazer com que todos os trabalhadores possam, de fato, despertar para esse desejo de uma cultura de equipe, mas também exercer essa cultura entre os seus pares, entre os gestores, desde o nível da mais alta gestão até os técnicos”, explica a psicóloga e servidora da Sesa Thércia Soares, uma das responsáveis pela iniciativa.
Segundo ela, no caso do cenário da compatibilização entre maternidade e vida profissional, há uma exigência de flexibilidade, tanto por parte da mãe que trabalha quanto por parte do seu ambiente de trabalho. Thércia se refere a uma gestão que acompanha a sua trabalhadora e também a uma trabalhadora que dá a sua contribuição profissional. “Aqui não se fala de liberações sem o retorno do trabalho. É importante que essa mãe possa contribuir com o seu trabalho”, explica.
Ao lado do cartaz de boas-vindas no retorno da licença-maternidade, a psicóloga Thércia Soares defende que uma trabalhadora que tem suas necessidades do maternar acolhidas no ambiente de trabalho tende a ser uma profissional com mais vigor e produtividade
“Uma mãe que precisa estar ali atenta, estar concentrada, estar com tônus, com vigor. Mesmo com uma noite mal dormida, conseguir se dedicar ao seu trabalho. Ela precisa que os gestores e os seus pares possam compreender essa dinâmica”, aponta. E como isso pode acontecer na prática? Thércia aponta que isso pode ser feito a partir de um entendimento de que a maternidade tem uma dinâmica muito intensa, de que é uma responsabilidade legal, e se expressa, por exemplo, em pequenos ajustes de horário, compensações de carga horária ou outras concessões acordadas em equipe.
Mãe de quatro filhos, Thércia afirma que experimenta isso diariamente. “A minha equipe é muito acolhedora”, aponta. “A maternidade é uma missão única, claro. Mas o trabalho, quando a mãe pode e consegue optar por isso, também dá um sentido à vida dessa mãe”, diz. “Dá um sentido de produção, de serviço, de você estar contribuindo com a sociedade por meio do seu trabalho. E também o ganho financeiro, que é importante, também, e contribui com a maternidade”, complementa.
Acima, no dia em que Thércia precisou levar o filho Lucas para o trabalho e participou de solenidade com o filho no colo. Abaixo, Lucas nos braços de Thércia, junto com a equipe de trabalho da mãe. À direita, colegas de trabalho acolhem o bebê de Thércia no escritório
“É excelente essa mãe poder ter essas várias versões. No trabalho, eu não deixo de ser mãe, mas eu também contribuo de outras formas. E, na minha casa, eu também mostro para os meus filhos que eu sou uma profissional. (…) Aquilo tudo tem um sentido quando você ama o seu trabalho e quando você também é bem acolhido no seu local de trabalho. Isso faz toda a diferença”, conclui.