Maternidade: cuidado que se constrói e se fortalece com apoio coletivo

7 de maio de 2026 - 10:15 # # # # #

Assessoria de Comunicação da Sesa
Texto: Marcela Belchior
Fotos: Marcela Belchior e Thamires Oliveira
Artes gráficas: Júlio Lopes

Anos após se dedicar integralmente à criação de dois filhos, a auxiliar administrativa Gildênya Passos (42) se viu diante do desafio de conciliar a maternidade e o seu retorno profissional. Para trabalhar como vendedora em um shopping da Capital, durante um tempo precisou recorrer a uma vizinha, que buscava na escola os meninos João Guilherme e Geison Filho, então com 6 e 4 anos de idade, respectivamente, e ficava com eles até que o pai chegasse do trabalho e assumisse a função.

Situações como a dela se repetem entre as famílias em meio a um contexto social no qual as mães assumem cada vez mais funções e as divisões igualitárias de responsabilidades entre as figuras educadoras, como pai e mãe, ainda pouco se efetivam. Como estruturar uma rede de apoio que dê suporte a essas maternidades? A série Mês das Mães 2026 da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) aborda essa questão.

Mães de dois meninos, a auxiliar administrativa Gildênya Passos já chegou a recorrer ao apoio de uma vizinha para cuidar dos filhos enquanto trabalhava

“Era muito difícil, mas a gente não pode bater de frente com o trabalho, que é uma prioridade, querendo ou não. Se eu não tivesse trabalho, como iria poder pagar a escola deles, como iria dar alimentação a eles?”, discute Gildênya.

Atualmente integrando a equipe do Plantão de Cirurgias da Sesa, ela reflete sobre os desafios dessa soma. “Hoje eu tenho mais flexibilidade. Se eu preciso ir na escola, levo uma declaração para o trabalho. Só que eu vim do comércio, que é muito complicado. Lá o patrão não quer saber se teu filho está doente. Quantas reuniões dos meus filhos eu perdi? Quantas?!”, relembra.

Gildênya Passos com os dois filhos, João Guilherme e Geyson Filho ainda pequenos (à esquerda) e atualmente

Mudanças no mundo do trabalho e os ciclos femininos

A psicóloga Luana Menezes, pós-graduada em Neuropsicologia e Saúde Mental e atualmente servidora e assessora da Coordenadoria de Gestão Estratégica e Desenvolvimento de Pessoas (Cogep) da Sesa, explica que o Brasil passa por profundas mudanças ao longo das três últimas décadas, período em que cresce a participação feminina no mercado de trabalho.

Entre os motivos dessa mudança, Luana aponta a necessidade de o casal trabalhar fora de casa, e não apenas um deles, para conseguir manter economicamente um lar. “E não somente nesse contexto, mas também aumenta o número de famílias em que a mulher é a única responsável financeira e pelo comando do núcleo familiar, partindo do princípio dos grandes índices de abandono do lar por parte dos maridos”, destaca a psicóloga, que pesquisa as relações entre maternidade e trabalho.

A psicóloga Luana Menezes aponta que as mães têm acumulado as funções financeira, de cuidado e de liderança dos lares

Segundo ela, quando falamos no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), a discussão da mulher no mercado de trabalho assume relevância ainda maior, na medida em que observamos um perfil majoritariamente feminino da força de trabalho. Para que o mundo laboral também funcione numa dinâmica de rede de apoio, Luana propõe repensar a construção de sua própria estrutura.

“O trabalho foi inicialmente pensado para o corpo masculino, sem olhar para as necessidades biológicas que são inerentes ao corpo feminino”, ressalta. “Assim como não foi pensando nos ciclos e trajetórias que ocorrem na vida feminina, sejam elas por escolha da mulher, como a maternidade, sejam aquelas que não são por escolha, mas que são biológicas, como a menopausa”, aponta.

Suporte para educação e trabalho da mulher mãe

A ausência de uma rede de apoio estrutural, que envolva tanto a esfera doméstica das famílias como a esfera social e ocupacional, acarretou repercussões profundas na maternidade de Euticiana Sotero (40). A auxiliar de Serviços Gerais da Sesa é mãe de seis filhos, que têm, atualmente, entre seis e 26 anos de idade.

“Para mim, ser mãe é tudo. Mas é muito difícil. Perdi minha mãe, meu pai mora em Camocim, meus irmãos e irmãs moram todos longe. O apoio que tenho no mundo, em primeiro lugar, é Deus. Em segundo, meus próprios filhos e as pessoas com quem eu consigo fazer amizade e que me acolhem”, relata.

A auxiliar de Serviços Gerais Euticiana Sotero é mãe de seis e tem nos próprios filhos sua rede de apoio

Mãe de primeira viagem ainda aos catorze anos de idade, Euticiana relembra que não pôde concluir os estudos e que, por questões financeiras e pela falta de acesso a uma rede de apoio, ela só pôde criar cinco dos seis filhos, sendo a mais velha adotada por outra família aos dois anos de idade. “Quando eu tive minha primeira filha, eu era uma criança. Hoje tenho quarenta anos. E teria novamente todos eles, só que eu teria criado todos”, reflete.

A criação dos dois mais jovens, Lucas (9) e Giovana (6), diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA), imprime ainda mais desafios à sua maternidade, somada à ausência do pai das crianças. “Quando eu soube que o Lucas tinha o TEA — o primeiro a ser diagnosticado —, foi muito difícil. O pai deles foi embora”, conta.

À esquerda, Euticiana Sotero com os dois filhos mais jovens, Lucas e Giovana, e, à direita, reunida com os seis filhos

Em meio a um rol de funções difícil de equilibrar, Euticiana afirma que, com o passar dos anos, foram os próprios filhos transformando-se em sua rede de apoio, ajudando nas tarefas do dia a dia e na construção de uma vida melhor.

“O único apoio que eu tenho mesmo é somente dos meus filhos. Não tenho apoio de mais ninguém. Por exemplo, eu estava desempregada e foi através deles que eu consegui um trabalho”, conta Euticiana. “Eu agradeço muito à Secretaria da Saúde porque aqui eu pude conhecer pessoas maravilhosas e tido a oportunidade de levar o alimento aos meus filhos. Sei que agora as coisas vão melhorar”, persevera.