Maternidade e rearranjos familiares: como a divisão de responsabilidades pode construir uma rede de apoio

11 de maio de 2026 - 11:45 # # #

Assessoria de Comunicação da Sesa
Texto: Marcela Belchior
Fotos: Marcela Belchior e Thamires Oliveira
Artes gráficas: Júlio Lopes

Em 15 de fevereiro de 1990, a epidemiologista e então servidora estadual Eni Terezinha Fleck entrou em trabalho de parto enquanto dava expediente na Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa). Mais de três décadas depois, sua filha, Manoela Fleck (36), hoje trabalha na mesma instituição e tem na mãe, já aposentada, o principal ponto de sua rede de apoio para conciliar a criação de Isabela (3), a gestação de José, a rotina profissional como advogada, além da vida acadêmica.

“Quando eu não posso estar presente, minha mãe sempre está participando. Inclusive, é uma pessoa com quem eu sei que a minha filha estará bem cuidada. É uma pessoa de confiança diária, como se fosse uma extensão minha”, conta Manoela. “Conto também com a família do meu esposo, que é uma rede de apoio muito importante, e com colaboradoras dentro de casa”, acrescenta. A terceira matéria da série Mês das Mães 2026 da Sesa aborda as reorganizações familiares na construção de uma rede de apoio para o exercício do maternar.

A advogada Manoela Fleck conta com uma rede de apoio familiar e profissional para conciliar maternidade, vida pessoal, carreira e produção acadêmica

“A maternidade, apesar de ser uma construção de amor e uma bênção, tem muitas dificuldades, especialmente para a mulher. A gente não pode dizer que é igual para homens e mulheres. Para a mulher, realmente, sempre pesa mais“, analisa Manoela. “Mas a divisão de responsabilidades e o apoio que você tem facilitam muito o nosso dia a dia. Eu, por exemplo, divido as responsabilidades da minha filha com a comunidade ao meu redor, que são minha família, meus amigos e meu esposo”, relata.

Para ela, além do compartilhamento de tarefas, uma rede de apoio configurada a partir de uma diversidade de figuras educadoras, de visões de mundo e de formas de participar da vida da criança enriquece o desenvolvimento dessas relações. “Às vezes, a gente acha que só a mãe dá conta do recado, mas ela precisa dessas experiências de pessoas diferentes, de personalidades diferentes para a sua educação”, explica.

Manoela atualmente ocupa o cargo de coordenadora da Assessoria de Controle Interno e Integridade (Ascit) da Sesa e cursa doutorado em Direito Constitucional. “Em 2022, eu estive grávida da minha primeira filha e comecei um doutorado, nesse meio tempo. Vou terminar o meu doutorado agora, grávida do meu segundo filho, e também estou aqui na Sesa desde 2023. Isso só foi possível graças à rede de apoio que eu tenho”, reconhece.

A rede de apoio de Manoela Fleck na criação da filha Isabela e na gestação de José conta com a divisão de tarefas com o marido (ao centro), além de sua mãe (à direita) e outros familiares

Tarefas maternas e rearranjos familiares

A assistente social Quelen Dourado, pós-graduada em Seguridade e Serviço Social e integrante da Célula de Qualidade de Vida, Segurança e Medicina do Trabalho (Ceqvi) da Sesa, chama a atenção para uma nova organização da sociedade por meio de rearranjos familiares.

“Antes existia aquele modelo patriarcal, em que a mulher ficava em casa e o homem saía para trabalhar, era o provedor. Se a gente começa a desconstruir esse padrão, pode falar em uma família mais participativa, em que todos estejam integrados, compartilhando tarefas, ajudando um ao outro”, aponta. “Mas essa dinâmica domiciliar ainda não acompanha todas as mudanças relacionadas à ida da mulher para o mercado de trabalho”, pondera.

A assistente social Quelen Dourado chama a atenção para os rearranjos sociais que conformam famílias mais participativas

Maternidade vai além da relação mãe e filho

Já a psicóloga Talita de Moisés, servidora da Sesa e também membro da Ceqvi, mestra em Avaliação de Políticas Públicas e especialista em Gestão de Pessoas, enfatiza que falar da maternidade vai além da relação entre mães e filhos. “A gente não está falando só da mulher que é mãe, a gente está falando de um projeto de sociedade”, destaca.

Segundo ela, é esse projeto que precisa ser discutido por todas as esferas de organização. “Até na Constituição Federal, onde se engloba a proteção à maternidade e se trata crianças e adolescentes como prioridade absoluta”, destaca.

Talita explica que hoje se vive em um modelo de sociedade industrial, desenvolvido a partir do século XIX, que teria fraturado a possibilidade de organização comunitária, essa que se expressaria com famílias amplas, uma vizinhança confiável e uma educação que não passasse apenas pela mãe e pelo pai, mas por toda uma comunidade.

“Esse modelo industrial no qual a gente passou a viver é que nos leva a nos dedicar horas e horas fora da ambiência do lar”, contextualiza. “E não foi sempre assim. Na realidade rural, por exemplo, você não tinha a saída do homem. Ele estava trabalhando ali, na sua roça, no seu entorno. Não era uma figura completamente ausente”, detalha a profissional.

A psicóloga Talita de Moisés destaca a necessidade de se pensar os modelos de organização social e do trabalho de maneira estrutural

De acordo com Talita, nesse modelo industrial, tem-se uma ausência das figuras educadoras para viabilizar a ida ao trabalho. “É uma sociedade que está totalmente estruturada em cima do trabalho. Não é à toa que é, também, uma sociedade extremamente adoecida”, aponta. “Então, repensar a maternidade, necessariamente, perpassa repensar algumas questões do trabalho, porque hoje ele se tornou central e está desumanizando algumas coisas”, afirma a psicóloga.

“Então, hoje, quando a gente tenta trazer esse tema dentro do ambiente de trabalho, é reconhecendo que a estrutura em que ele está desenhado tem sido causadora de sofrimentos. E não é restrito à mãe. Estamos falando de toda uma geração futura que vai ser educada por quem? Precisamos fazer essa discussão pensando não só na mãe, mas em qual sociedade a gente quer”, enfatiza.