“Meu querido HGF”: conheça a trajetória de profissionais que tiveram vidas marcadas pela unidade
29 de maio de 2026 - 17:12 #57 anos #Carreira #HGF #homenagem #pediatria
Assessoria de Comunicação do HGF
Texto e fotos: Arquivo pessoal e Governo do Estado
Ary Melo acompanhou o nascimento de uma referência da saúde no Ceará
No ano em que o Hospital Geral de Fortaleza (HGF), equipamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), celebra 57 anos de história, conheça relatos de profissionais que tiveram suas vidas atravessadas pelo hospital. Entre corredores, plantões, consultas, perdas e recomeços, cada trajetória ajuda a contar também a história do HGF e das pessoas que fazem parte dela todos os dias.
Quando o médico Ary Melo fala sobre o HGF, a impressão que fica não é a de alguém recordando apenas um local de trabalho. Aos 86 anos, prestes a completar 87, ele olha para o hospital como quem reconhece um companheiro de jornada.
O equipamento ainda dava seus primeiros passos quando Ary chegou para integrar a equipe de pediatria. “Tive o prazer de dividir a rotina com nomes que ajudaram a construir a história da pediatria cearense, entre eles Luiz Otávio Castelo, Prazeres Rabelo, Helena Leal, Adélia Luz e Jorge Triandópolis”, lembra.

As lembranças mais vivas daquele período estão concentradas na antiga neonatologia, hoje reconhecida por seu padrão de alta qualidade e por sua grandiosidade técnica e profissional. “Naquela época, as incubadoras Fanem apenas aqueciam e ofertavam oxigênio. Usávamos o aparelho Takaoka em emergências, ‘luvas mágicas’ para conter apneias e fazíamos ressuscitações com adrenalina intracardíaca, além de fototerapias improvisadas com lâmpadas fluorescentes comuns”, recorda.
Entre uma época e outra, ficaram as madrugadas de plantão, as noites sem dormir, os sustos, os nascimentos difíceis e as amizades que sobreviveram ao tempo. Ary fala do hospital como quem fala de uma convivência longa e verdadeira, construída no cotidiano. “Mais de meio século de amor”, define. “Um amor maduro, mesmo platônico, mas inabalável e verdadeiro”.
Talvez por isso ele consiga descrever com tanto afeto detalhes que passariam despercebidos para quase qualquer pessoa. Elementos que, para muitos, seriam apenas sinais da passagem do tempo, mas que para ele carregam memória, presença e vida.
“Pode uma pessoa normal e em sã consciência amar desgastadas paredes, velhos elevadores com seus alegres ascensoristas? Pode sim, pois amei e amo ainda imensamente tudo isto em que vivi por 53 anos neste meu velho e amado HGF”, conta.
Depois de mais de meio século entrando pelos mesmos corredores, Ary Melo parece ter encontrado no HGF algo raro entre um profissional e uma instituição: a sensação de pertencimento. “Não é o sentimento formal de um crachá ou de uma longa carreira, mas o que nasce quando a própria vida passa a ser contada junto com a história desse lugar”, reforça.

Registro de um dos muitos plantões ao longo dos 53 anos de carreira no HGF
Às vésperas de completar 87 anos, Ary ainda preserva o humor ao falar do futuro. Diz que não pretende ser “um outro Matusalém”, mas deseja continuar vivendo com autonomia, dirigindo seu “velho carrinho”, mantendo a memória ativa e as conversas com amigos e familiares.
A forma como fala Ary do HGF ajuda a entender o motivo de sua permanência tão longa. Há instituições que fazem parte da biografia de alguém. Em casos mais raros, a vida da pessoa também passa a fazer parte da memória da instituição. Ary Melo e o Hospital Geral de Fortaleza parecem ter chegado juntos a esse ponto.
O hospital onde Lucyana construiu a carreira também acolheu sua maternidade

Lucyana grávida de seu filho Théo de Castro Lima, hoje com 3 anos e 6 meses
Há 12 anos no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), Lucyana Lima, 39, já conhecia a intensidade da rotina hospitalar – os plantões longos, as decisões urgentes e as histórias que atravessam diariamente um hospital público de referência. Mas foi depois da maternidade que ela passou a enxergar aquele ambiente de outra forma.
“O hospital que me acolheu como profissional também esteve presente em uma das fases mais importantes da minha vida como mulher e mãe”, relembra a assistente social.

O retorno ao trabalho, após a licença-maternidade, trouxe desafios que ela não conseguia prever. Entre a adaptação à nova rotina em casa e as demandas profissionais, precisou aprender, aos poucos, a lidar com os medos, as inseguranças e as exigências emocionais da amamentação. “Amamentar não foi fácil para mim. Foi um processo doloroso, delicado e de muito aprendizado”, conta.
Lucyana lembra que encontrou apoio justamente dentro do lugar onde trabalhava. Colegas e outros profissionais, além de familiares, ajudaram a formar uma rede de acolhimento que fez diferença naquele período. Informação, escuta e respeito às suas escolhas contribuíram para que ela atravessasse aquele momento com mais segurança e menos culpa.
Com o passar do tempo, a experiência ganhou um novo significado. Além de amamentar o próprio filho, ela se tornou doadora no Banco de Leite Humano do HGF. “Naquele momento, entendi que aquele processo difícil que vivi também podia alcançar outras mães e outros bebês. Para mim, teve um significado muito profundo perceber que, enquanto eu aprendia a ser mãe, também conseguia ajudar outras vidas por meio do cuidado”, lembra.
Lucyana também destaca a importância do trabalho realizado pelo Banco de Leite Humano do HGF. “Eu sei como muitas mulheres chegam ao hospital cheias de dúvidas, medos e insegurança, porque também vivi isso. O apoio que encontrei no Banco de Leite Humano e nos profissionais do SUS fez diferença na minha experiência como mãe”, diz.
No mês em que o Hospital Geral de Fortaleza celebra 57 anos, a história de Lucyana também se mistura à trajetória do hospital. “O HGF sempre fez parte da minha vida, mas a maternidade mudou a forma como eu passei a enxergar esse lugar. Hoje, percebo que essa experiência também faz parte da minha história dentro do hospital”, afirma.