Mulheres que vivem com HIV: histórias de resiliência, cuidado e esperança

23 de março de 2026 - 15:57 # # # # # #

Assessoria de Comunicação do HSJ
Texto e fotos: Allane Marreiro
Arte gráfica: Carla Bandeira

Durante muito tempo, o HIV foi associado a um único perfil: homens que se relacionam com outros homens. Um estereótipo que não condiz com a realidade,  que tem rosto, voz e história também de mulheres. Todos os dias, elas convivem não apenas com o vírus, mas enfrentam preconceito, silêncio e invisibilidade.

No Mês das Mulheres, dar espaço a essas histórias é também um ato de cuidado e reconhecimento. No Hospital São José de Doenças Infecciosas (HSJ), unidade da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), mulheres que vivem com HIV encontram acompanhamento, acolhimento e, muitas vezes, um recomeço.

“Viver com HIV é possível. Com preconceito, não.”

Para Orleanda, é importante falar que existe vida após o HIV. “A gente ama de novo, pode engravidar e ter um filho saudável, e isso precisa ser dito”, comenta

Aos 49 anos, Orleanda Gomes convive com o HIV há mais de duas décadas. O diagnóstico veio durante a gravidez, um momento que, para muitas mulheres, já é cercado de expectativas e emoções. “O desespero foi grande. Eu não queria acreditar. Mas, ao mesmo tempo, eu precisava ficar bem por causa do meu filho”, lembra Orleanda.

Sem poder contar com a família naquele momento, Orleanda encontrou no Hospital São José o suporte necessário: acompanhamento médico, psicológico e social. Um acolhimento que, segundo ela, fez toda a diferença. Hoje, como representante do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas no Ceará, ela transforma a própria história em apoio para outras mulheres.

“Do diagnóstico até aqui foi uma longa caminhada, então, o que eu aprendi foi a lidar com o preconceito, mas nunca normalizar, porque ninguém deve fazer isso. O que mata a gente não é o HIV. É o preconceito e a exclusão”, enfatiza Orleanda.

Maternidade, cuidado e informação

Assim como Orleanda, Sabrina Vieira, de 40 anos, também descobriu o HIV durante a gestação. O impacto inicial foi marcado por medo e questionamentos. “Eu chorei muito. Pensei: por que comigo? Mas logo entendi que precisava lutar pela minha filha”, recorda Sabrina.

O desejo de Sabrina é que todas as mulheres que passem pelo diagnóstico positivo possam ser acolhidas e encontrar apoio da família e da rede de saúde

Com acompanhamento adequado, Sabrina iniciou o tratamento ainda na gravidez. Aos seis meses, já estava com carga viral indetectável — o que impede a transmissão do vírus. A filha nasceu sem HIV. “Quando a gente vê que o filho não tem o vírus, é um sentimento de vitória. É saber que conseguiu”, comenta com orgulho.

Histórias como essa reforçam uma informação essencial: mulheres que vivem com HIV podem, sim, viver a maternidade com segurança, desde que tenham acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado.

De acordo com o médico infectologista do HSJ, Luan Victor, quando uma mulher que vive com HIV segue o tratamento regularmente e mantém a carga viral indetectável, o risco de transmissão vertical — ou seja, durante a gestação ou no parto — é muito baixo.

“Esse risco fica próximo de zero, principalmente quando são adotadas medidas preventivas específicas, como o acompanhamento pré-natal adequado, o monitoramento da carga viral ao longo da gravidez, os cuidados indicados durante o parto e o uso de medicamentos preventivos no recém-nascido. Com a realização de todos esses cuidados, hoje já é possível prevenir completamente a transmissão do HIV da mãe para o bebê, permitindo que mulheres que vivem com HIV realizem o sonho de ter uma maternidade segura”, destaca o especialista.

Entre o abandono e a força

Para muitas mulheres, o diagnóstico não vem sozinho. Ele revela relações fragilizadas, desigualdades e, em alguns casos, violência.

Ana Paula Albuquerque, hoje com 62 anos, recebeu o diagnóstico em 1990, quando ainda se sabia pouco sobre o vírus e as possibilidades de tratamento. Na época, morava em Maceió (AL) e decidiu fazer o teste diante do uso de drogas pelo marido. “Naquele tempo, era uma sentença de morte. Fiquei muito abalada quando soube, achava que ia morrer no outro dia”, comenta.

Para Ana Paula, independentemente das dificuldades, o mais importante é sempre seguir em frente buscando saúde, bem-estar e felicidade

Mãe de dois filhos pequenos, Ana Paula encontrou neles a força para seguir. Mas também enfrentou o preconceito dentro da própria família e a dor de ser culpabilizada pelo companheiro.

Eu levantei a cabeça e fui viver. Primeiro por mim, depois pelos meus filhos. Após um tempo, eu fiquei viúva. Quando o luto passou, eu tinha muito medo de me relacionar com quem não era soropositivo por medo do preconceito. Mas eu continuei minha vida como mulher. Sempre me cuidei, sempre gostei de maquiagem, de batom, nunca deixei de cuidar de mim”, recorda Ana Paula.

A trajetória dela inclui perdas, recaídas e recomeços — até encontrar, no acompanhamento de saúde e em redes de apoio, um caminho de reconstrução.

O infectologista Luan Victor explica que é perfeitamente possível seguir em relacionamentos e prevenir a transmissão. Ele reforça o conceito “I=I”, que significa Indetectável = Intransmissível, reforçando que pessoas que vivem com HIV e têm a carga viral indetectável, confirmada por dois testes em um intervalo de seis meses, não transmitem o vírus.

“Isso significa que, nessas condições, mesmo em relações sexuais sem preservativo, não há risco de transmissão do HIV. O uso da camisinha continua sendo recomendado para prevenir outras Infecções Sexualmente Transmissíveis como a sífilis ou a gonorreia, por exemplo, mas no que diz respeito ao HIV, Indetectável = Intransmissível”, afirma.

Saúde mental e acolhimento fazem a diferença

O impacto emocional do diagnóstico ainda é um dos maiores desafios. Medo, culpa, isolamento e depressão fazem parte da realidade de muitas mulheres. Por isso, o acolhimento é fundamental. Sabrina, que hoje também apoia outras mulheres recém-diagnosticadas, reforça: “No começo, muitas querem desistir de tudo. E o que elas mais precisam é de escuta, de acolhimento, de alguém que diga que elas não estão sozinhas”, enfatiza.

No ambulatório do Hospital São José, além do tratamento com o médico infectologista e da medicação, o cuidado envolve uma equipe multiprofissional — com psicólogos, assistentes sociais e profissionais preparados para atender de forma humanizada.

Rede de apoio: ninguém precisa enfrentar sozinha

Acolhimento e apoio mútuo são essenciais para conseguir renovar as forças e o equilíbrio mental necessário para seguir a vida

Foi nesse ambiente que Orleanda encontrou não apenas tratamento, mas também propósito. “Eu me encontrei no Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas. Hoje, quero ser essa voz para outras mulheres que ainda não conseguem falar”, afirma.

Orleanda destaca que o HIV ainda é cercado por estigmas — especialmente quando se trata de mulheres. “Muita gente ainda acha que é uma doença de homens gays. Mas o HIV não escolhe gênero e nem sexualidade. O HIV não tem cara. Ele pode estar do lado de qualquer pessoa”, destaca.

O silêncio, muitas vezes, é consequência do medo do julgamento. “Muitas mulheres querem falar, mas se calam por medo do preconceito.”

“Tem vida após o diagnóstico”

Com os avanços da ciência, o HIV hoje é uma condição crônica tratável. Com o uso correto da medicação, a pessoa pode alcançar a carga viral indetectável — o que significa que não transmite o vírus. Ainda assim, o preconceito segue como uma das maiores barreiras. “A gente avançou muito no tratamento, mas não avançou na mesma proporção contra o preconceito”, reforça Orleanda.

As histórias dessas mulheres mostram que o HIV não define quem elas são. Elas são mães, trabalhadoras, lideranças, mulheres que amam, recomeçam e seguem em frente.

“Tem vida após o diagnóstico”, diz Orleanda.

“Eu sou outra pessoa depois do HIV”, completa Sabrina.

“Se não fossem meus filhos, eu não estaria aqui”, afirma Ana Paula.

Mais do que sobreviver, elas resistem e transformam suas trajetórias em caminhos de esperança para outras mulheres. Falar sobre mulheres que vivem com HIV é romper silêncios, combater estigmas e garantir que nenhuma história seja invisibilizada. Porque por trás de cada diagnóstico, existe uma vida que merece ser vivida com dignidade, cuidado e respeito.