Projeto une saberes indígenas e ciência para ampliar acesso a fitoterápicos no SUS do Ceará
8 de junho de 2026 - 10:43 #assistência farmacêutica #farmácia viva #Projeto Interculturalidade e Farmácias Vivas no Sistema Único de Saúde Ceará
Assessoria de Comunicação da Sesa
Texto: Jessika Sampaio
Foto: Ana Georgina Oliveira e Rufina Ribeiro (Neta)
Iniciativa envolve comunidades indígenas de Caucaia, Itapipoca, Maracanaú e Poranga na construção de uma rede de produção de fitoterápicos para o SUS
O diálogo entre conhecimentos tradicionais indígenas e a assistência farmacêutica do Sistema Único de Saúde (SUS) tem ganhado novos contornos no Ceará. Desenvolvido pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), em parceria com o Distrito Sanitário Especial Indígena do Ceará (Dsei-CE) e a Universidade Federal do Ceará (UFC), o Projeto Interculturalidade e Farmácias Vivas no Sistema Único de Saúde Ceará avança na estruturação de uma rede de produção de fitoterápicos em comunidades indígenas de todo o estado.
Para a coordenadora do projeto, Aleksandra Barroso Gomes, a iniciativa amplia as possibilidades de cuidado ofertadas pelo SUS ao mesmo tempo em que reconhece conhecimentos já presentes nos territórios indígenas.
“Estamos construindo uma iniciativa que une rigor técnico, segurança sanitária e respeito às práticas culturais dessas comunidades. A Sesa contribui com sua estrutura técnica, laboratorial e com profissionais habilitados para garantir que esse conhecimento dialogue com os processos de produção e assistência farmacêutica do SUS, promovendo um cuidado mais inclusivo e conectado às realidades locais”, destaca.
Financiada pelo Ministério da Saúde, a iniciativa teve início em 2024 e trabalha na implantação de uma cadeia produtiva que envolve cultivo, beneficiamento e produção de medicamentos fitoterápicos a partir de espécies medicinais já utilizadas tradicionalmente pelos povos indígenas.
O projeto contempla quatro territórios indígenas: Tapeba, em Caucaia; Tremembé, na Barra do Mundaú, em Itapipoca; Pitaguary, em Maracanaú; e Tabajara e Kalabaça, em Poranga. Nesses locais, foram implantados hortos de plantas medicinais cultivados por agentes indígenas de cultivo selecionados pelo projeto.
A escolha dos territórios foi construída de forma conjunta com representantes da saúde indígena e das próprias comunidades, como explica Aleksandra.
“Buscamos contemplar diferentes regiões do estado e a diversidade dos povos indígenas cearenses. Também foram considerados aspectos como a disponibilidade de áreas coletivas para implantação dos hortos, o interesse das comunidades em participar do projeto e a viabilidade técnica para o cultivo das espécies medicinais previstas na iniciativa”, explica.
Ao todo, oito agentes indígenas de cultivo atuam nos quatro hortos comunitários implantados pelo projeto. Eles receberam capacitação técnica para acompanhar todas as etapas do cultivo e do beneficiamento primário das plantas medicinais, unindo conhecimentos tradicionais e orientações agronômicas e farmacêuticas.
Do cultivo à produção de fitoterápicos
Espécies cultivadas nos territórios indígenas serão transformadas em xaropes, pomadas, tinturas, sabonetes líquidos e sachês para distribuição na rede de saúde indígena
As mudas das dez espécies medicinais selecionadas para a iniciativa foram produzidas e distribuídas pelo Horto Oficial de Plantas Medicinais do Estado. As plantas cultivadas nos territórios incluem chambá, babosa, alecrim-pimenta, hortelã, açafroa, cidreira, capim-santo, confrei, malva-santa e malvarisco. A partir delas, serão produzidos xaropes, pomadas, tinturas, sabonete líquido e sachês destinados ao cuidado de condições respiratórias, dermatológicas e psicossociais frequentemente acompanhadas na Atenção Primária à Saúde.
Segundo a farmacêutica Ana Georgina Oliveira Pontes, bolsista do projeto, uma das etapas mais importantes concluídas recentemente foi a capacitação dos agentes indígenas para o beneficiamento primário das plantas medicinais.
“Essa etapa envolve a colheita, secagem e armazenamento adequados das plantas para que elas possam seguir para a produção dos fitoterápicos.É um processo que exige cuidados específicos e que faz parte da estrutura da Farmácia Viva”, explica.
Os fitoterápicos produzidos serão distribuídos pelo Horto Oficial do Estado, por meio dos sistemas de assistência farmacêutica do SUS, para o Dsei-CE, que fará o encaminhamento às unidades de saúde indígena.
Atualmente, o Ceará possui 19 UBSI em funcionamento e outras 17 em implantação.
Conhecimento ancestral
Agentes indígenas de cultivo receberam capacitação para acompanhar etapas como plantio, colheita, secagem e armazenamento das plantas medicinais
Para o assessor técnico indígena e representante das medicinas indígenas no Dsei-CE, Edivan Veríssimo Rosa, da Terra Indígena Tremembé da Barra do Mundaú, o projeto amplia a valorização institucional de práticas de cuidado que já fazem parte do cotidiano das comunidades.
“As plantas utilizadas no projeto já são conhecidas e utilizadas pelos povos indígenas há muitas gerações. Antes mesmo de serem estudadas cientificamente, elas já tinham utilidade para os nossos povos. Então, o projeto contribui para que essas práticas sejam reconhecidas, valorizadas e incorporadas de forma respeitosa às políticas públicas de saúde”, destaca.
Com alcance estadual, a iniciativa dialoga, ainda, com as diretrizes da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (Pnaspi) ao integrar práticas tradicionais de cuidado às ações desenvolvidas no SUS.
Para Edivan, um dos diferenciais do projeto é que as comunidades indígenas participam de todas as etapas do processo, desde o cultivo das plantas medicinais até o acesso aos fitoterápicos produzidos a partir delas.
“Este projeto foi pensado para que os medicamentos sejam produzidos a partir das plantas cultivadas nos territórios indígenas e retornem para as comunidades por meio das Unidades Básicas de Saúde Indígena. É uma forma de transformar esse conhecimento em cuidado, mantendo o vínculo com a nossa cultura e com os nossos modos tradicionais de viver e cuidar”, afirma.
Para o representante indígena, a expectativa é que a iniciativa contribua para a transmissão desses conhecimentos às novas gerações e amplie o acesso das comunidades a práticas de cuidado que fazem parte de sua história e identidade cultural.