Saúde mental materna mobiliza profissionais e pesquisadores em seminário
29 de maio de 2026 - 16:02 #Saúde mental materna #Seminário de Saúde Mental Materna
Assessoria de Comunicação da Sesa
Texto: Jessika Sampaio
A qualificação da escuta dos profissionais de saúde foi um dos destaques do evento
Refletir sobre os desafios da maternidade para além da gestação e do puerpério, considerando fatores como violência, vulnerabilidade social, saúde sexual e reprodutiva, luto e diversidade de experiências maternas. Com esse objetivo, a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) realizou, nesta sexta-feira (29), na Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE), o 3º Seminário de Saúde Mental Materna.
O evento foi realizado pela Secretaria Executiva de Atenção Primária e Políticas de Saúde (Seaps), por meio da Coordenadoria de Políticas de Saúde Mental (Copom) e da Coordenadoria de Atenção Primária à Saúde (Coaps), em parceria com a Universidade Estadual do Ceará (Uece).
Entre os temas abordados esteve o cuidado às mulheres e famílias que enfrentam perdas durante a gestação ou logo após o nascimento
Na abertura, a coordenadora de Políticas e Gestão do Cuidado da Sesa, Juliana Guimarães Silva, destacou a importância de ampliar o debate sobre a saúde mental das mulheres sem romantizar a maternidade e reconhecendo os diferentes fatores que impactam a vida das mães.
“Quando falamos de saúde mental materna, precisamos olhar para a diversidade das mulheres, para suas histórias, suas ancestralidades e também para as situações que as vulnerabilizam. A sobrecarga do cuidado, as múltiplas jornadas de trabalho e as diversas formas de violência atravessam a experiência da maternidade e precisam ser consideradas na organização do cuidado”, observou.
O encontro integrou a programação do “Maio Furta-Cor”, mês de conscientização voltada à saúde mental materna, e reuniu profissionais da saúde, pesquisadores, estudantes e gestores de diferentes regiões do estado. A programação abordou temas como saúde mental no ciclo gravídico-puerperal, prevenção da violência, perda perinatal, maternidades plurais, direitos sexuais e reprodutivos, além de oficinas voltadas à qualificação do cuidado na Atenção Primária à Saúde.
Além das palestras e mesas-redondas, o seminário promoveu oficinas práticas voltadas à construção de estratégias de cuidado em saúde mental materna
A coordenadora de Atenção Primária à Saúde da Sesa, Thaís Facó, ressaltou que a saúde mental não deve ser vista como responsabilidade exclusiva dos serviços especializados. Segundo ela, a Atenção Primária tem papel fundamental na identificação precoce de situações de sofrimento psíquico e na construção de respostas integrais para as mulheres e suas famílias.
“Uma mulher em situação de extrema vulnerabilidade social ou vivendo em um contexto de violência já está submetida a processos importantes de adoecimento. Quando conseguimos identificar essas situações no território, temos a oportunidade de intervir precocemente e ofertar cuidado antes que o sofrimento se agrave”, afirmou.
A programação trouxe reflexões sobre maternidades indígenas, experiências de mães atípicas, vivências de mulheres lésbicas e homens trans que gestam
A necessidade de compreender a maternidade como uma experiência complexa e contínua também foi abordada, ainda na mesa de abertura, pela coordenadora da Coordenadoria de Políticas de Saúde Mental (Copom), Juliana da Silva. Para ela, a escuta qualificada dos profissionais é uma das principais ferramentas para identificar sofrimentos que muitas vezes permanecem invisíveis.
“Muitas questões não são verbalizadas porque são dolorosas, difíceis de compartilhar. Por isso, precisamos desenvolver uma escuta capaz de perceber o que está além da queixa imediata. A saúde mental materna não se restringe à gestação ou ao puerpério. Ela acompanha as mulheres ao longo da vida e envolve experiências como o luto, a violência, a vulnerabilidade social e tantas outras situações que exigem sensibilidade dos serviços de saúde”, pontuou.
As oficinas discutiram temas como planejamento familiar, autonomia reprodutiva e prevenção da gravidez não planejada
Seguindo a conferência de abertura, o pesquisador e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Uece, Antônio Rodrigues Ferreira Júnior, destacou a trajetória de construção do seminário e o crescimento da mobilização em torno do tema no Ceará.
Segundo ele, a iniciativa nasceu na universidade e, ao longo dos anos, ampliou sua abrangência ao incorporar novos parceiros institucionais, incluindo a Sesa e a ESP/CE. “Esse é um espaço importante porque nos permite interromper, ainda que por algumas horas, a rotina intensa dos serviços para refletir sobre questões que impactam diretamente a vida das mulheres e das famílias. Mais do que uma discussão pontual, é uma oportunidade de produzir conhecimento e levar essas reflexões para os territórios e para o cotidiano do SUS”, avaliou.
Programação discutiu diferentes dimensões da maternidade
A apresentação do Grupo de Mulheres Kunhã Itapewa trouxe ao evento reflexões sobre cuidado, pertencimento e valorização dos saberes ancestrais
Ao longo do dia, os participantes acompanharam conferências, mesas-redondas e oficinas temáticas. Entre os assuntos debatidos estiveram a vigilância em saúde mental materna, os impactos da perda perinatal, o cuidado obstétrico como estratégia de proteção à saúde mental, maternidades indígenas, experiências de mães atípicas, vivências de mulheres lésbicas e homens trans que gestam, além dos efeitos das expectativas sociais sobre a maternidade.
As oficinas também abordaram temas como promoção da saúde mental materna na Atenção Primária, direitos sexuais e reprodutivos, planejamento familiar, enfrentamento da violência e cuidado às mulheres e famílias em situação de luto perinatal.
Inspirado pelo movimento Maio Furta-Cor, o seminário reforçou a importância de reconhecer a pluralidade das experiências maternas e de ampliar as redes de cuidado, acolhimento e proteção às mulheres em todas as etapas da vida.